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iPhone escancara nosso jeito “O Cortiço” de ser

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Creative Commons License photo credit: ulisses barbosa

Me impressionou a matéria ecrita semana passada pelo Diogenes Muniz, editor de Informatica da Folha de Sao Paulo. Ele conta sobre os dois eventos – um da Claro e outro da Vivo – de lançamento do iPhone em SP. Em qualquer lugar do mundo teria sido um evento de geeks, com jornalistas de informática e, vá lá, também de economia, comportamento e etcs, afinal de contas o iPhone é o maior lançamento de uma das maiores empresas de eletrônicos do mundo. Mas no Brasil, as coisas são diferentes, e adivinha em que tipo de gente os dois eventos se alicerçaram? Famosos, é claro. “Artistas” e “celebridades” que foram convidados aos borbotões e compareceram às dúzias. E o que mais impressiona na matéria do Diógenes é o real motivo da presença de tais espécimes. Não se tratava de trabalho: nenhum deles recebeu cachê. Tampouco de uma confraternização entre colegas. Estavam lá era para tentar ganhar um iPhone 3G. De graça. De brinde. Vivem todos num pais onde atores de novela e outros tipos de celebridades televisivas são verdadeiros semi-deuses e tudo podem, ganham milhares de reais por mês de suas emissoras e da auto-exploração de suas imagens, teriam dinheiro de sobra para comprar um iPhone brasileiro – mesmo com estes preços surrreais de que falei da semana passada – mas não: vão dar pinta em festa de lançamento para mendigar um telefone celular. Mas mendigar com estilo é claro, sem jamais descer do salto e da soberba. A matéria conta que Preta Gil, questionada sobre suas reais intenções, não se fez de rogada: « Comprar? A gente não é hipocrita, né? ». E completou: « eu quero o iPhone G3 » (assim mesmo, confundindo a sigla). Já Tais Araujo queria « ver os Jetsons », segundo o autor da matéria fazendo alusão a uma chamada de videofone, onde é possivel vermos na tela a pessoa com quem estamos falando. Sendo que o iPhone não tem essa função. Me lembrei do Pânico na TV, talvez um dos mais inteligentes humoristicos da tv brasileira, que faz graça mostrando as barbaridades e ignorâncias ditas por esta casta de « celebridades e famosos » que, apesar do altissimo poder aquisitivo tem pelo visto os mesmos hábitos de leitura das classes D e E. Uma sociedade cujos « exemplos de vida » (como diria o Faustão) são na média totalmente alienados. E sabemos bem que, nessa época de revolução tecnológica e de sociedade da informação que estamos vivendo, pobres daqueles que não têm acesso a ela, seja por falta de condição ou de vontade. Mais do que nunca, pobre do país que não lê. Pobre país onde até os que já têm muito continuam tentando tirar vantagem em tudo, seja faturando um iPhone, seja qualquer outra vertente do comportamento de um VIP. Tal pobreza de espírito e tamanha cafonice me faz pensar no « O Cortiço », obra-prima de Aluisio Azevedo que li na escola e que agora estou relendo, quase 20 anos depois. É impressionante perceber que em 1890 o autor conseguiu traçar com detalhes a origem de alguns valores nacionais ainda tão atuais: a ganância, o desprezo dos poucos ricos pela massa de pobretões, a passividade destes últimos frente às injustiças, além  da promiscuidade e da falta de dignidade das relações humanas – presentes tanto entre a ralé quando entre a burguesia. A malandragem já imperava e se Graham Bell tivesse feito no Rio o lançamento de sua invenção, todos os personagens do livro teriam feito fila pra ganhar um de brinde. A coluna desta semana na verdade é pra sugerir a todos vocês esta (re)leitura, durante os ultimos 100 anos disponivel em qualquer biblioteca publica, mas agora neste século XXI disponivel tambem na Internet mais proxima de você, de graça, para quem quiser ler (aqui ou aqui). Bendita internet!

Este post foi publicado em segunda-feira, setembro 29, 2008 às 12:36 pm, na(s) categoria(s) coluna cibermundo, cultura urbana e tagueadas , , , . Faça um bookmark para o permalink deste post. Receba os novos comentários com o feed RSS deste post.

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