
photo credit: Stillframe
É impossível não se impressionar diante de um iPhone. Mesmo os que não são entusiastas da informática e da tecnologia olham espantados para este pequeno aparelho que há poucos anos poderia perfeitamente ter sido o telefone “do futuro” em qualquer filme de ficção científica – e que agora vai passar a fazer parte do nosso dia a dia, em breve oficialmente também no Brasil. Por mais que a tecnologia tenha avançado rapidamente nesta última década, e não apenas nas telecomunicações, foi o iPhone que – no que diz respeito aos objetos que fazem parte do nosso cotidiano – nos deu a impressão de que agora estamos efetivamente no século 21. Neste mundo onde a comunicação e o consumo de informação começam a tomar proporções inéditas, é o telefone da Apple que está marcando a convergência dos celulares, tocadores de música e computadores de mão num único objeto.
A imprensa e os blogs de tecnologia não falam de outra coisa, em todos os cantos do mundo: falam da revolução que este pequeno telefone talvez esteja anunciando, falam do futuro que finalmente chegou. No entanto minha empolgação em torno do iPhone – como todo mundo, eu também adoraria colocar as mãos em um – sofreu um sério baque por conta do contexto em que acontecerá a tão aguardada chegada do aparelho ao Brasil. Fiquei estarrecido com os preços do iPod brasileiro, que farão com que por aqui ele não seja o que está sendo no primeiro mundo: um objeto caro porém ainda acessível, que começa a ser visto nas ruas, no metrô, nos bares, cujos donos começam a experimentar – e entre si - todas as novas funcionalidades que ele oferece. Afinal de contas, apenas um seleto grupo de abonados poderá pagar a fortuna que um iPhone custará no Brasil. Na Europa, por exemplo, o iPhone também chega enquanto produto importado, pois a Apple é uma uma empresa norte-americana. Mas um iPhone europeu custa em torno de 300 euros, acompanhado de um plano que custa cerca de 50 euros por mês, para duas horas de chamadas de vez e acesso ilimitado à Internet. Ou seja, um europeu que ganha 1500 euros por mês vai pagar 300 pra entrar no clube e depois uma nota de 50 por mês pra usar o brinquedo (cerca de 130 reais por mês). É caro, há trocentas outras opções de aparelhos e planos mais em conta, mais ainda assim é algo acessível. A prova é que não apenas a classe média alta tem comprado, mas também as classes C e D, seja por realmente precisarem de um telefone que também é um computador de mão, seja pelo gostinho de ter nas mãos um gadget revolucionário.
Mas no Brasil, um iPhone vai custar cerca de 2 mil reais! Ou “apenas” 1 mil, acompanhado de um plano que custará surreais R$600 por mês! Um brasileiro que ganha então R$1500 por mês vai gastar todo seu salário para entrar no clube, e em seguida mais de um terço por mês para continuar a brincadeira. Em bom português: impraticável. E mais: quem no Brasil ganha R$1,5 mil por mês? O buraco então é muito mais embaixo. E se ninguém quis dizer até agora, direi: o iPhone escancara a pobreza brasileira. O futuro chegou, é verdade, mas não no Brasil. Por aqui o iPhone, símbolo da atual revolução das telecomunicações pela qual a humanidade está passando, será apenas mais um símbolo de status nas mãos da pequena elite financeira.
Vai ser esquisito ver um adolescente do Leblon assistindo um video do YouTube na tela de um iPhone numa cidade onde um outro adolescente da mesma idade já é pai e toda noite tem que proteger seu bebê dos ratos que frequentam o barraco – e que assiste videos pela TV a cabo pirata da favela, controlada pelo crime organizado. Vai ser muito estranho ver alguém num ônibus postando em seu blog pelo iPhone, numa megalópole onde o metrô liga o nada ao lugar nenhum – sendo que “ninguém sabe, ninguém viu” no que diz respeito a todas as verbas liberadas ao longo dos últimos 20 anos para as inúmeras extensões já votadas e previstas. Vai ser esquisito demais ver alguem acessando o Google Maps na tela do iPhone, numa cidade com boa parte de seu territorio – hectares, talvez até mesmo quilometros quadrados – dominados pelo crime armado de fuzis, metralhadoras e granadas. Atual simbolo extremo da modernidade, o iPhone vai nos mostrar que o Brasil, que sempre foi “o país do futuro”, está perdendo o trem. Se já não perdeu.
Este post foi publicado em segunda-feira, setembro 22, 2008 às 3:10 pm, na(s) categoria(s) aldeia global, coluna cibermundo, tecnologia e tagueadas Apple, Brasil, comportamento, economia, iPhone, social. Faça um bookmark para o permalink deste post. Receba os novos comentários com o feed RSS deste post.

Ou então
Prezado, li seu ótimo artigo no JB e vim aqui deixar um recado, uma opinião. Sabe, o iPhone não é importante se não para exibir nossas chagas, como você tão bem o fez. Além destas sobre as quais já tratou, reparo em outra: a virulênca do nosso marketing, sempre mais intenso, mais dramático, mais exclusivo que em outros quintais. Os gênios da Claro, Tim e Vivo se reuniram e definiram como vai ser colcoado aqui um produto que, sim, serveria para democratizar o acesso de milhões à internet, por que não? Ao contrário, vem para separar, desagregar e partir mais ainda nossa consciência, Pensando bem, o iPhone daria uma bela bandeira a favor do que quer que se preste a melhorar nossa qualidade de vida e dos serviços públicos, a radicalizar contra o consumo, contra o uso de animais em laboratórios, contra a Monsanto, contra o MST, contra qualquer coisa que nos restaure a lucidez, a paz e a estabilidade emocional, pois, a meu ver, estes preços que você relata são obra de ficção.
Sou profissional de TI e sei como o público em geral frequentemente é vítima do “último lançamento”.
Observei consternado o frenesi ocorrido nos EUA quando houve o lançamento do iPhone.
Na minha opinião, as cenas mais patéticas ocorriam quando os deslumbrados saiam da Apple Magazine segurando as bolsas com o iPhone como se fosse um troféu e um bando de figuras prostradas na calçada batiam palmas. Deprimente…
Vendo aquelas cenas, não sei por que, mas lembrei dos milhares de miseráveis em países de terceiro mundo, conseguiriam se alimentar por várias meses com o valor gasto em apenas um daqueles aparelhos.
O ser humano realmente perdeu a noção…
Concordo com os comentários do Nicollas e principalmente com o WFazolato quando este diz “o ser humano realmente perdeu a noção”.. É muito cruel ver profissionais da saúde pública (onde trabalho), atendendo o filho do Zeruela que chegou à Emergência, cheio de miase e áscaris, e ele, o Doutor, consultando, no seu brinquedinho, qual a dose mais adequada de medicamento a ser aplicada….. e vejo esse filme quase todas as semanas…. e o pior de tudo que o Doutor impressiona, pensam que ele é mais competente do que realmente o é………..
Excelente coluna, Cid.
O mundo (e não apenas o Brasil, onde esses abismos talvez sejam somente mais claros) infelizmente ainda é isso aí: o melhor do século 21 permitindo-se conviver com o pior do século 13 – por pura escolha.
É uma vergonha para todos nós que a tecnologia produza tanto frenesi com essas quinquilharias de luxo disputadas a tapa pela elite global enquanto pessoas morrem por falta de uma aspirina nos corações das trevas da Terra.
Essas contradições mostram como nosso ideal de civilização é equivocado, e o quanto os valores que regem o mundo humano são, no fundo, imensamente desumanos.
A impressão que eu tenho é que a tecnologia às vezes mascara o fato de que evoluímos pouco nesses milhões de anos. Continuamos bárbaros, só que agora digitais.