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É hora de desacelerarmos?

These Boots Were Made For Driving
Creative Commons License photo credit: steveharris

Durante as últimas semanas o mundo viveu a pior crise financeira dos últimos 80 anos, com as bolsas do mundo inteiro oscilando freneticamente, subindo e descendo trocentas vezes durante um mesmo dia. Pra dar uma boa baixada no final das contas. E uma boa subida nestes primeiros dias pós-crise. Agora a poeira está começando a baixar, mas a perspectiva de uma longa recessão se anuncia diante de nossos olhos. O mundo – neste exato momento – está desacelerando, para que consiga se recuperar das feridas e, se for o caso, acelerar novamente daqui alguns anos, muito provavelmente tomando outras direções. Me pergunto então: não seria o momento de aproveitarmos todos o ensejo e desacelerarmos um pouco nossas próprias vidas? A apologia à rapidez, que ditou o ritmo durante os últimos 50 anos com conceitos como “quanto mais rápido melhor” e “tempo é dinheiro”, talvez esteja chegando ao fim. Será que está na hora de pisarmos um pouco no freio? Consumimos as riquezas naturais do planeta numa velocidade muito mais rápida do que aquela com que a Terra consegue renovar seus recursos, temos a impressão de que os dias são curtos demais para darmos conta de tudo o que devemos e queremos fazer, além do fato de que esta revolução tecnologica que estamos vivendo cria muito mais produtos e informação do que realmente conseguimos e/ou precisamos consumir. É então neste contexto que tem ganhado força uma tendência comportamental que vem sendo chamada de “slow”, que em português quer dizer “devagar”, e que é a materialização desta (novamente) atual necessidade de darmos uma desacelerada geral. O movimento pela “calma” (prefiro traduzir assim) tem ganhado importância principalmente no que diz respeito aos habitos alimentares e de consumo, mas começa também a se manifestar no design e na moda. Tudo começou em 1986, na Itália, quando um tal de Carlo Petrini fundou o movimento que depois ficaria mundialmente conhecido como “slow-food“. Visionario, Petrini na epoca queria protestar contra a febre das lanchonetes fast-foods, cujo conceito de ‘comer rapidamente algo que foi preparado mais rapidamente ainda’ é sinonimo de comida ruim e má alimentacao. Hoje os adepto da “slow-food” ja estao presentes em mais de 100 paises (inclusive no Brasil), organizados em associações e ONGs,  pregando uma culinaria ecologicamente correta e regional para preservar a biodiversidade do meio ambiente e sobretudo a saude de quem come. Valorizam alimentos da estação e produtos regionais desconhecidos ou quase em extincao, . Poderiamos dizer que os “locavores” de que falei na semana retrasada, que tem como filosofia só comerem alimentos produzidos num raio de 160 quilometros de onde moram, são uma ala mais radical dos “slow-food”. Radicalismos à parte, os adeptos do “comer com calma” tentam é provar que clichês como ‘comer produtos mais caros é sinonimo de comer melhor’ sao falsos: os pratos prontos vendidos nos supermercados sao caros e nao fazem bem para a saude, além do que produtos importados caros nao sao necessariamente de melhor qualidade do que seus similares brasileiros. Para os “slow food”, a melhor maneira de economizar o proprio dinheiro, economizar os recursos do planeta, e de quebra ainda manter a boa saude, é comer comida caseira. Preparar em casa a comida e – o segredo do sucesso – comer com calma, com tempo. E nisso os Italianos sempre foram mestres, faz sentido que o movimento “slow-food” tenha começado por lá. (…) O conceito tem chegado ao design, com o nome de “slow-tech“. A proposta: parar de criar objetos efêmeros, extinguir a moda dos produtos descartáveis. Os designers que tem mergulhado nesta nova tendência tem flertado com a ciência ou mesmo com a filosofia, e criado objetos feitos de material reciclado ou orgânico, feitos para durar décadas, onde o conceito de ‘objeto de arte’ tem sido enfim esquecido, de forma que a razão de ser daquela cadeira ali no canto da sala passe a ser apenas a sua real utilidade, que é de sustentar o corpo de pessoas sentadas, e que de alguma maneira ela se integre tanto à casa quanto às pessoas. Interessante, não? O conceito tem chegado inclusive no mundo da moda, onde alguns criadores/marcas começam a propor um tipo de “slow-wear“, roupas feitas de materiais de altissima qualidade (de maneira geral materiais orgânicos e/ou naturais), feitas para durar anos e anos. O que é algo na direção contrária da dinâmica que a moda sempre propôs, de trocar de guarda-roupa todo ano. Será então que vai dar pé? Até onde nosso mundo capitalista vai querer/conseguir se desacelerar?

Este post foi publicado em segunda-feira, outubro 20, 2008 às 3:23 pm, na(s) categoria(s) aldeia global, coluna cibermundo, cultura urbana e tagueadas , , , , , , , . Faça um bookmark para o permalink deste post. Receba os novos comentários com o feed RSS deste post.

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